sábado, 24 de setembro de 2016

Ainda sobre o moço barbudo!

Não paro de pensar no moço que me cobriu de chantilly e lambeu cada uma das minhas feridas abertas. A saliva foi como curativo para elas ainda tão dolorosas e cultivadas ao som de Chico Buarque. Como doença psicológica que se instala, lembro daquela barba roçando cada centímetro do meu corpo. O gelo derretendo, o óleo escorrendo, a trilha sonora ecoando na mente! Mas aí lembro das palavras e da "síndrome do amor-próprio" e desisto. Não posso voltar lá, perderei o rumo de casa, da vida, das dores, dos desamores. Finjo nunca ter existido tais momentos de suspiro e com isso evito toda e qualquer possibilidade de drama, de sofrimento, de desgosto. Anulo também as possibilidades de felicidade plena, de amor, de riso.
Volto para a minha zona de conforto que não me proporciona o melhor sexo, tampouco me arranca suspiros, afeto, amor. A zona de conforto cobre minhas costas enquanto durmo, acaricia meus cabelos enquanto me distraio com Netflix, fica encantado me ouvindo proferir os mais variados discursos, fica em brasa ao me tocar (pena que eu não consiga corresponder). Dá-me a segurança de não sentir nada além do peso de um corpo que não satisfaz minhas necessidades fisiológicas, que nunca me dará filhos, que nunca me dará entusiasmo para meter os pés pelas mãos e com isso me sentir viva. A racionalidade sobressai, não vejo possibilidade de futuro, empurro com a barriga. Ele duvida quando digo que nosso caso tem prazo de validade: -Só mais dois anos! sussurro baixinho. Ele ri e retruca: -Tu és adoravelmente pancadinha! 


Mirele Machado

sábado, 10 de setembro de 2016

Era uma vez, um moço barbudo!

Era uma vez, um moço lindo, com barba chamativa, adicionou-me a sua rede social fingindo me conhecer. Não demonstrei interesse, mas vigiei todos os seus passos virtuais. Um dia, hei de esbarrar nesse moço por aí. Quis tanto, mas tanto; que o destino trouxe o moço para mim.
O por aí aconteceu ao som de Raul Seixas. Vi o moço me olhando no canto do bar, coração disparou, disfarcei, fugi, olhei, desviei, olhei de novo. O moço veio e num descuido me enlaçou a cintura. Logo eu, a moça que não beija em público, estava ali atônita retribuindo o beijo.
Meus amigos o aprovaram e eu, em silêncio, também aprovei. Que sensação boa que eu não sentia desde o Lobo Mau e o PA. Aceitei o convite indecente, meio incrédula com o poder do pensamento que trouxe o moço para mim, assim, sem sacrifício.
Ai... suspiros tantos! Medos... muitos! O moço fala igualzinho ao finado Zé quando diz que serei dele e que não quer que eu o esqueça. Nessa hora, broxei. Um orgasmo sequer. O moço se esforçou, mas a semelhança do que ouvi estragou tudo. E como fala, socorro! O moço cobriu-me de óleo, massageou-me as costas, dormimos. 
O bom dia do moço barbudo foi encantador. Já era de tarde quando vim para casa flutuando, pisando em nuvens, com um sorriso largo de orelha a orelha. Que lembrança boa e cheirosa de se guardar! Então, são essas agradáveis e belíssimas surpresas que a vida me reservou? Suspiro fundo e deixo o rádio ligado e a lembrança esquecida. 

P.S: Recebi mensagens de madrugada o que me leva a crer que fomos vistos aos beijos! Já era, já foi, paciência! Eu avisei não querer mais notícias da tal "zona de conforto"!



Mirele Machado