sábado, 4 de abril de 2015

Ahhh... o amor, esse insano!

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. 
Guimarães Rosa


Eu que não fumo, perdi as contas de quantos cigarros fumei e quantas vezes olhei a tela do celular procurando o nome, pensando em escrever uma mensagem qualquer. Visualizar o nome me fez perder toda a vontade, joguei o celular no chão. Chorei! Como se existisse uma sintonia, ele veio, não creio, é verdade, mas veio.
O que o trouxe até aqui? O álcool, o sentimento que não mencionamos existir, o prazer da minha carne convulsa? Não sei, não sei; e esse não saber me atordoa. Não o beijei, como se assim eu o amasse menos. A rejeição foi só o desespero da minha entrega. Um discurso ensaiado na mente, mas palavra alguma sai. Brasa ao primeiro toque e confissões tantas. Ahh... o amor, esse insano! Amor meu, só meu; que só o que recebo em troca é a volúpia da carne.
Não consigo ser de mais ninguém e não sou dele também. Gosto dele assim, não sabendo se vai fugir ou ficar. Leve, livre, cálida, inconstante e apaixonada, assim me vou viver o milésimo amor. Amar já prevendo o milésimo rompimento e as lágrimas tantas! Ai que tola!, e o beijei com fúria; tão macia a pressa, tão vagos amantes. E ao despertar, abraçá-lo até me sufocar na delícia que é o aconchego daqueles braços. Ainda dá tempo de encostar o queixo no ombro e dizer: -Te amo! Mas não digo. 

Mirele Machado



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Carne convulsa é o que resta

Não vou te deixar, por enquanto. Ficarei mais um pouquinho. Demorei tanto para me apaixonar que agora não sei como me despedir. Eu que sou tão boa em bater a porta sem olhar para trás, desaprendi a desatar o nó. Há dez meses estamos assim, indo e vindo e nunca chegando a lugar algum. Sempre deixo-o vir, mas ele não é meu; então finjo não ser dele, eis nossa cínica troca.
Perdi a conta de quantas vezes terminei "para sempre", como se meu silêncio persistisse mais de duas semanas. E não foi só a noção de "para sempre" e de silêncio e de amor-próprio que perdi. Perdi aquela máscara que fazia de mim intocável em meu pedestal. Meus sentimentos não se disfarçam e a vulnerabilidade se instala.
Semana passada, disse assim desse meu jeito desajeitado e torto: -Acho que gosto de ti! - e isso é o máximo que me permito dizer. Ele retrucou: -Eu sei, por isso eu sempre venho te ver! Eu sei? Mês passado, começou com aquele lance de trocar juras, até um "te amo" escreveu, agora apenas sabe? Ai, Deus, esse cara quer me enlouquecer!
Fiquei brava com o saber dele, engoli em seco meu choro, meu despeito, meu amor; enquanto nossos corpos se encaixavam para dormir. Diz ele: -Como a gente se acerta para dormir, o encaixe é perfeito! Neste momento estou surda. E cega. É que outros homens me olham e não enxergo nenhum deles, acomodei meu corpo e meu coração nos braços desse moço que nem me faz infinita questão.
Quando cito minhas frases-de-cabeça (Guimarães Rosa), ele não entende nenhuma. Porque se acha esperto, mas é burro. Carne convulsa é o que me resta, mesmo que escrito na testa, me testa. Amor que não é meu e que nem sequer cheguei chamá-lo assim. 


Mirele Machado