O jornalismo voltado ao entretenimento
No passado, os meios de comunicação eram canais de debate público e sua função era a de dirigir, ilustrar e educar o público, hoje, a imprensa voltou-se ao entretenimento, ao espetáculo. Ou seja, a imprensa transformou-se numa negação da vocação inicial do jornalismo. A informação foi absorvida pelo negócio do entretenimento e vender se constituiu no principal da mídia contemporânea.
O entretenimento não tem nada a ver com a comunicação de caráter público. Ele, simplesmente, engoliu o jornalismo. Qualquer empreendimento capitalista tem por finalidade o lucro, nenhuma novidade quanto a isso. O entretenimento também. Mas ele vende o que, exatamente? Sua mercadoria não são as atrações que ele faz crer que são suas mercadorias, mas os olhos para os quais essas supostas mercadorias se anunciam atraentes. Ele comercializa o olhar de quem o vê. O entretenimento resume-se ao ofício de captar o olhar social para vendê-lo, de acordo com a quantidade e com a suposta qualidade da platéia da qual ele se origina.
A televisão, por exemplo, foi absorvida pelo entretenimento e se tornou propulsora e dissiminadora do espetáculo como um modo de produção. O jornalismo tem buscado mais entreter do que informar. A cobertura telejornalística do episódio 11 de setembro mostra uma propensão acentuada à finalidade de chocar, de emocionar, de projetar o que há de sensacional no fato. A morte de Bin Laden virou coisa de cinema, filme catástrofe iniciado lá em 2001 e que agora precisa de imagens do homem morto, pois nosso olhar não acredita mais em nada, como comentou Arnaldo Jabor.
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| Após a divulgação de que o terrorista havia sido morto, começaram a circular na internet várias fotos que mostrariam o corpo de Bin Laden. |
A cultura está sendo criada e a beleza fabricada. Hoje, tudo o que é espetáculo vira notícia. A televisão, aliás, tem entre nós o estatuto de janela para o mundo, capaz de descortinar os fatos como eles são, como se víssemos de perto com nossos próprios olhos, porque vivemos numa civilização em que a imagem se tornou critério da verdade.
Sendo assim, vendemos nosso olhar quando nos iludimos e apoiamos no visível o critério da verdade. O visível não é e nem contém o critério da verdade. O visível não é algo que nos fala aos sentidos, mas ao conhecimento, a razão, ao entendimento. Ou seja, a expressão das idéias, necessariamente, só pode ser concebida como um processo que se estende além das fronteiras do visível.
O jornalismo voltado ao entretenimento é o que caracteriza a chamada quarta idade da imprensa. O jornalismo deixou de flertar com as artes plásticas, o cinema, com os textos que são narrativas literárias eternas e passou a ser anti-sedutor e só depois informativo. Agora, a guerra, o terror, precisam acontecer na instância da imagem, precisam tocar nosso olhar para ser construída a legitimação dos fatos. E uma versão sensacionalista dos fatos certamente tem “mais leitura”, isto é, vende mais jornal e rende mais imagens, já que não vemos TV de olhos fechados como nos propõe Eugênio Bucci. O pensamento abstrato tornou-se um “crime” e precisamos nos libertar, pois não se pode continuar vivendo na tirania das imagens, na era do espetáculo, no jornalismo do entretenimento.
Mirele Machado
