segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mas que dia é hoje afinal?

E por sorte amanhã é 24 e esqueço que hoje foi 23. O dia está terminando e recém lembrei de que o hoje é dia para se esquecer. E esqueço tudo porque já nem faz sentido. E nem fez. E nem mais fará. E assim minto como se pudesse enganar a mim mesma. E finjo que acreditei na minha mentira. E desejo dormir e esquecer e morrer. E amanhã acordar e não desejar mais nada. E fugir dessa desordem mental toda.


Mirele Machado




Mas, afinal, o que quero?

Não quero olhar para trás, lá na frente, e descobrir que desperdicei oportunidades por medo. Medo? Medo do novo, medo de ser feliz, medo de arriscar, medo de perder o que de fato nunca me pertenceu. Então, decidi chutar o balde, desconstruir os sonhos alcançados. Joguei aliança e chaves fora e fui ser livre.
Não foi fácil abandoná-lo, mas eu sentia que precisava fazê-lo. Fui sem saber direito por que estava indo. Sofri tipo bicho, chorei do despertar ao adormecer. Mas continuei de cabeça erguida como se não fizesse falta, como se não doesse, como se eu o não amasse. Troquei de número, de endereço, de amor (que nem amei, mas ousei chamá-lo amor). E da minha forma torta, vestindo um sorriso amarelo e dizendo não sentir nada, abrasei em outros lábios por aí. Em vão, em vão.
Eu quis tanto ser livre e agora a liberdade atordoa, aprisiona. Eu quis tanto seguir outro caminho e hoje o que resta é uma nostalgia que fere. Nunca saberei se o último dia daquele mês de julho foi meu reinício ou minha ruína. Só o que sei é que fui suficientemente corajosa para contrariar meus sentimentos. Ou seria mais uma vez o medo se apoderando e me fazendo fugir? Não sei, não sei. O não saber aborrece. 
E eu nem sei tudo o que quero. E quando consigo o que faço daquilo que quero? E o que faço quando vez ou outra consigo aquilo que quero e por conseguir  já não me serve mais? Como uma roupa que encolheu, os sonhos tão idealizados repentinamente perdem a serventia, já não me cabem mais. E o que cabe nesse meu desatino? Só sei que por hora quero que aquele rosto e todas as lembranças desvaneçam assim como a fumaça do cigarro que insisto em inalar.


Mirele Machado