domingo, 11 de outubro de 2015

Um ano, cinco meses e um ponto final

Agradeço pelo sexo tântrico, pela conchinha mais perfeita do mundo, pelo abraço sufocante nas noites de inverno, pelos beijos abrasadores no despertar, pelos sorrisos arrancados de orelha a orelha após uma noite ao teu lado. É com coração apertado que me recuso vê-lo, despedir-me pessoalmente. Amor meu, que nunca foste meu; e que eu nunca consegui dizer que o queria para mim. É com coração angustiado que recuso a despedida, pois vê-lo seria admitir minhas fraquezas. Tu já as sabes todas, as máscaras caíram. Quanto eu dizer que o único sentimento que sei distinguir é o de fome, é puro disfarce, já que sou verdadeiro desastre com essas coisas aí do coração. Tive medo de dizer sim e morrer de tédio, de vazio, de remorso.
Um ano, cinco meses e um ponto final. Não posso prosseguir com isso. A notícia abalou-me, feriu de morte meus tímpanos. Não chorei, engoli em seco, com estranha resignação. E mesmo sabendo o desfecho fatídico eu faria tudo de novo. Desejo-te sorte, felicidade plena, pois não há como desejar mal alguém que tanto bem me fez. Que bem? Livrar-me do peso morto que eu carregava no peito. Quando, nos braços teus, contei da recaída; tu acolheu-me, secou-me as lágrimas teimosas e me aceitou assim, com esse coração sórdido. E em meio ao turbilhão de sentimentos tu disseste assim, como quem não quer nada: - Já deveríamos estar namorando. Eu, tola que sou, segui usando-te como válvula de escape para esse caos que há em mim. 
Meu pretim lindo, liberto-te e impeço-te de continuares a me pedir desculpas. É com coração resoluto que desejo felicidade plena aos três. E é com esse coração que apesar de leviano, ora lascivo, ora terno; que aprendi a só desejar o que emanar de bom de mim. Louca da cabeça sim, porém o coração é bom. Sentimento bom esse que fica de fechar o ciclo sem rancor. Como despedida, deixo-te a letra da canção que outrora deixaste para mim: "Que esse fim não traga dor, pois é apenas um novo começo".


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Eis nossa obscena troca

Cê aparece aqui às cinco da madrugada para perguntar se eu te amo. Desculpa amor, atônita deixo que adormeça em mim. Adormece em mim, mas não mora; porque eu não deixo não, viu? Ai de mim, que não canso de andar em círculos, pois sabemos bem que não chegaremos a lugar algum. Ou é o medo da chegada que me assusta?
Deita quietinho, mas não pergunta não. Esse sentimento não cabe no peito, explode em orgasmos múltiplos. Estrangulo esse sentimento em grunhidos sinceros. Ai moço, eu não sei amar não, viu? Adormece em meus braços e ao despertar esquece esse questionamento bobo. Vá que eu substitua o disfarce da gargalhada pela resposta que cê veio buscar.
Enquanto cê dorme eu penso em perguntar o que o faz voltar? Eu termino, cê termina, nós terminamos e isso são reticências. Cê diz que não preciso falar do que sinto, pois sente. Ai moço, cê quer me enlouquecer? Sussurro baixinho um despretensioso gosto de ti, adormecido só saberá em sonho. E quando amanhecer já não estarei deitada ao seu lado e cê esquecerá a pergunta e eu da resposta. Eis nossa obscena troca! 

"Com você perto de mim, não tem papo
Eu quero a vida inteira assim, e não nego
Basta te encontrar, eu, você e o universo
Pra manter nosso clima assim tão direto".




sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ai... essas reticências!

-Hoje, foi nossa última vez. Não dá mais! - disse ele assim, enquanto se vestia. Paralisada, no sofá, hipnotizada nos olhos negros, invés das palavras proferidas; não disse nada. 
-Quer chorar? Quer me dizer alguma coisa? Tu gosta de mim? Desculpa? - resmungou ele.
-Sai daqui, eu não quero chorar. Só quero que tu saia.
-Quer que eu saia porque tu vai chorar?
Ai, como eu o odeio por isso. Não chorei, pois sei que em quinze dias "volta o cão arrependido". Eu terminei tantas vezes, agora é vez dele. Isso é outra daquelas reticências que a consciência nos impõe colocar. Os dois tem problemas com pontos finais, agora sei. 

"...Eu quase que fico feliz com você
Que quase disse aquelas coisas sem querer
Que meu lamento não te deixa triste
Seu quase sofre de chorar sem sorte
Mereço quase o nosso caos
Se eu quase vivo de tentar..."



quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Mas não nesse mês, não nessas férias, não nesse ano"

Muito eu, sempre indisponível afetivamente. Sempre com uma desculpa esfarrapada por estar muito ocupada fazendo nada. E o cara insiste, ele tenta, se esforça, até que desiste de tanta negação. Eu e minha psique; e a maldita projeção do meu complexo paterno.
"O primeiro homem que uma mulher conhece é seu pai, que portanto tem uma influência muito grande sobre a menina. Se a relação com o pai se constela de um modo negativo, a menina reagirá negativamente a ele. O pai, em si, pode ou não ser um homem difícil. A menina pode simplesmente não gostar dele. De qualquer modo, se a relação for negativa, mais tarde ela provavelmente terá dificuldade com os homens e não descobrirá seu próprio lado masculino. No extremo, ela ficará completamente incapaz de abordar os homens. Com certeza terá medo deles. Se o caso não for tão extremo, ela será o que se costuma chamar de uma mulher difícil. Discutirá com os homens, tentará sempre desafiá-los, criticá-los e pô-los para baixo. Ela esperará negatividade da parte deles, e essa expectativa naturalmente criará dificuldades para o parceiro”. (Von Franz, 1992b, p.163)
Tendo constelado em sua psique o complexo paterno, a mulher, além de pautar suas atitudes por um padrão caracteristicamente masculino, projetará nos homens esse complexo. Ela acreditará que o homem concreto que vê com os olhos da sua interioridade é de fato como o vê, já que, em algum nível, e em alguma proporção, ainda que mínima, ele possui características semelhantes àquelas.

sábado, 2 de maio de 2015

Só terei paz longe de você

É chegada a hora da despedida, de desatar o nó. Não dá para viver nessa reprise de novela mexicana eternamente. Fingi na hora rir, mas depois da despedida desabei; humana que sou. Verdade é que acomodei meu corpo e meu coração por demasiado tempo nos braços desse moço que não me faz infinita questão. Sem arrependimentos, sem mágoas, sem tormentos. Guardo o que foi bom e sigo em frente. Nenhuma dor é eterna e todo fim é antes de tudo um recomeço.
"Nosso romance é um elefante numa loja de cristais. Eu te amo demais, mas hoje eu consigo entender que eu só terei paz quando estiver longe de você".


sábado, 4 de abril de 2015

Ahhh... o amor, esse insano!

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. 
Guimarães Rosa


Eu que não fumo, perdi as contas de quantos cigarros fumei e quantas vezes olhei a tela do celular procurando o nome, pensando em escrever uma mensagem qualquer. Visualizar o nome me fez perder toda a vontade, joguei o celular no chão. Chorei! Como se existisse uma sintonia, ele veio, não creio, é verdade, mas veio.
O que o trouxe até aqui? O álcool, o sentimento que não mencionamos existir, o prazer da minha carne convulsa? Não sei, não sei; e esse não saber me atordoa. Não o beijei, como se assim eu o amasse menos. A rejeição foi só o desespero da minha entrega. Um discurso ensaiado na mente, mas palavra alguma sai. Brasa ao primeiro toque e confissões tantas. Ahh... o amor, esse insano! Amor meu, só meu; que só o que recebo em troca é a volúpia da carne.
Não consigo ser de mais ninguém e não sou dele também. Gosto dele assim, não sabendo se vai fugir ou ficar. Leve, livre, cálida, inconstante e apaixonada, assim me vou viver o milésimo amor. Amar já prevendo o milésimo rompimento e as lágrimas tantas! Ai que tola!, e o beijei com fúria; tão macia a pressa, tão vagos amantes. E ao despertar, abraçá-lo até me sufocar na delícia que é o aconchego daqueles braços. Ainda dá tempo de encostar o queixo no ombro e dizer: -Te amo! Mas não digo. 

Mirele Machado



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Carne convulsa é o que resta

Não vou te deixar, por enquanto. Ficarei mais um pouquinho. Demorei tanto para me apaixonar que agora não sei como me despedir. Eu que sou tão boa em bater a porta sem olhar para trás, desaprendi a desatar o nó. Há dez meses estamos assim, indo e vindo e nunca chegando a lugar algum. Sempre deixo-o vir, mas ele não é meu; então finjo não ser dele, eis nossa cínica troca.
Perdi a conta de quantas vezes terminei "para sempre", como se meu silêncio persistisse mais de duas semanas. E não foi só a noção de "para sempre" e de silêncio e de amor-próprio que perdi. Perdi aquela máscara que fazia de mim intocável em meu pedestal. Meus sentimentos não se disfarçam e a vulnerabilidade se instala.
Semana passada, disse assim desse meu jeito desajeitado e torto: -Acho que gosto de ti! - e isso é o máximo que me permito dizer. Ele retrucou: -Eu sei, por isso eu sempre venho te ver! Eu sei? Mês passado, começou com aquele lance de trocar juras, até um "te amo" escreveu, agora apenas sabe? Ai, Deus, esse cara quer me enlouquecer!
Fiquei brava com o saber dele, engoli em seco meu choro, meu despeito, meu amor; enquanto nossos corpos se encaixavam para dormir. Diz ele: -Como a gente se acerta para dormir, o encaixe é perfeito! Neste momento estou surda. E cega. É que outros homens me olham e não enxergo nenhum deles, acomodei meu corpo e meu coração nos braços desse moço que nem me faz infinita questão.
Quando cito minhas frases-de-cabeça (Guimarães Rosa), ele não entende nenhuma. Porque se acha esperto, mas é burro. Carne convulsa é o que me resta, mesmo que escrito na testa, me testa. Amor que não é meu e que nem sequer cheguei chamá-lo assim. 


Mirele Machado

domingo, 8 de março de 2015

Maldito seja!

Só quero fugir desse coração.
Só isso, pretim.
Ai de mim, cegueira tomou conta.
Deixa eu fugir do caos.
Não me afaga os cabelos,
cê sabe que eu fico.
Não dá mais para ficar.
Não dá mais para fingir.
Eu vi a foto.
Afoguei-me em cólera
E cê sabe que não sei nadar.
Não disfarça.
Cê sabe que eu vi.
Maldito seja, amor meu!
Maldito seja!