sexta-feira, 23 de maio de 2014


“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”

Reler Clarice Lispector e se enxergar em cada linha, sentindo as palavras perfurarem a alma. O desejo é lancinante, a saudade é aturdente, e a vontade? Ahhh, vontade é o que mais há. Mas já passei por isso e bem sei que intensidade de dor é essa que nos amofina. Enquanto o silêncio fere de morte meus tímpanos ponho-me a esperar. Mas não, não esperarei para sempre. Tenho pressa, nem sei do que, mas tenho pressa. Pode parecer loucura, em meio a tantas loucuras que tenho, mas sei que terei vida breve. Parece que essas coisas a gente nasce sabendo. 
Talvez porque no meu âmago eu saiba dessa brevidade toda é que sou tão intensa com as minhas emoções. Não perco tempo com o que ou quem não gosto, tampouco com quem não gosta de mim. "A louca": definem-me assim, muitas e muitas vezes. Mas tudo que faço na minha vida é com amor, fúria, alma, então, isso é ser demente? O que não posso é perder tempo sendo hipócrita, fingindo sentir coisas que não sinto ou omitindo o que sinto. Minha sensibilidade é exacerbada e não consigo escamotear essa infeliz realidade.
Sim, sinto saudade todos os dias, desde tão poucos dias. Minha racionalidade diz: ninguém se apaixona tão rápido, então, dorme que, amanhã, esse sentimento desaparece. Acordo e ele continua aqui, intacto. E eu não quero sentir isso, então o que faço? Faço nada! Eu fujo e enfio a cara nos meus livros e escrevo que nem "louca", estou quase me convencendo da minha insanidade. Mas hoje, só hoje, vou atravessar essa linha tênue amortizada pelo álcool. E acordar e desejar morrer.

Mirele Machado

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