"- Por que você toma tanto calmante? perguntou ele sorrindo.
- Ah, disse ela com simplicidade, é assim: vamos dizer que uma pessoa estivesse gritando e então outra pessoa punha um travesseiro na boca da outra para não se ouvir o grito. Pois quando tomo calmante, eu não ouço meu grito, sei que estou gritando mas não ouço, é assim, disse ela ajeitando a saia."
Clarice Lispector em "A Maça no Escuro", Editora Rocco, p. 187
É por isso que tomo Fluoxetina e Alprazolam, ora para sufocar os gritos, ora para não escutá-los. Vez ou outra, anestesio às emoções com álcool e gargalhadas estridentes e gesticuladas. Não é fácil ser contraditória, ter uma mente barulhenta, estabelecer diálogos de fácil compreensão. Todos me chamam de "louca", mas antes louca do que em constante estado de conformidade.
Depois de eu ter convivido tão de perto com a doença e a morte da Tay repensei a minha vida. Chega de esconder o que eu sinto. Não vou mais esconder nada, pois sofro com isso. Não compactuo mais com um tipo de silêncio nocivo: o silêncio que tortura o outro, que confunde, o silêncio a fim de manter o poder num relacionamento. Basta de mentiras parciais e verdades pela metade.
Se eu sinto e daí? Cansei de ser incógnita só porque quando sou absolutamente sincera, a vulnerabilidade se instala. Quero uma vida intensa, plena, desafiadora. Quero cometer loucuras tantas, ir até o fim, sentir dor, se preciso for. Quero novos cortes e cores de cabelo, novas possibilidades e mudanças na trilha sonora. Quero viver!!!
Mirele Machado

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