domingo, 26 de maio de 2013



"Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada. Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."
Marla de Queiroz

quinta-feira, 25 de abril de 2013

BEM-VINDO, MEU AMOR




Fabrício Carpinejar



Bem-vindo, meu amor, nosso soluço não é mais do choro, agora é do riso, pelo excesso de alegria. 


Deixe para trás os ossos dos homens que não souberam lhe amar. Os ossos não têm olhos. 


Deixe as despedidas ingratas, a avareza dos outros. 


Deixe o que não traz mais lembrança; mentiras jamais acalmam.

Não seremos prisioneiros da culpa e do remorso, não seremos reféns das incertezas.

Incertezas envelhecem, as dúvidas não.

Você cria mistérios, sou mais vivo porque me questiona, sou mais seu porque não para de me perguntar o que aconteceu.

Venha engolir vento comigo, inspirar o primeiro ar da manhã da estrada, lavar as mãos no solzinho tímido.

Vem comigo, amor, cheira meu pescoço. É cheirando meu pescoço que descobrirá se falo a verdade. O cheiro é minha confidência. Meu cheiro tem o seu cheiro. Transpiro o que leio em sua pele.

Amar só traz simplicidade.

Amar só traz humildade.

Amar antes só me trouxe para perto.

Para aqueles que pensam que caso e me separo com facilidade, você será minha contradição, a insistência da virtude, a volúpia dos sapatos.

E vamos rir de soluçar. Pois ninguém acreditou na gente, a não ser a gente. Temos a vantagem da intuição, amor.

Você dormiu colada em meu corpo desde o início. E não pedimos trégua, água, tempo.

Sua respiração me assobia, me canta, me compõe.

Você não escondeu nada de mim.

Você conversa comigo como se eu fosse seu próprio pensamento.

Você já fez minha barba para sentir o quanto custa ferir meu rosto.

Eu já penteei seus cabelos para sentir o quanto um nó puxa a cabeça para baixo.

Bem-vindo, amor, nosso passado é o nosso futuro.

Você escolhe a roupa na última meia hora de sono. Eu me visto de suas escolhas pelo resto do dia.

Bem-vindo, amor.

Brigaremos no supermercado para definir nossa janta. Faremos festa ao descobrir um pequeno aumento no salário. Puxaremos assunto com os garçons. Receberemos elogios de estranhos comovidos com nosso abraço e inveja dos casais mais antigos. Tocaremos os pés na madrugada e ficaremos com vontade de acordar. Encostaremos os braços nos filmes e ficaremos com vontade de dormir. Jamais trocaremos de lado na cama. Dividiremos o jornal de domingo. Gostaremos das mesmas coisas das vitrines. Seu número em meu telefone constará como um segundo nome. Seus anéis estarão dentro de meus livros. Minhas mãos estarão dentro de suas mãos.

Bem-vindo, amor.

Felicidade não é para ser vivida sozinha. Sozinha, ainda é segredo.

A felicidade é uma denúncia. Vou denunciá-la com um beijo.

Denunciá-la para minha eternidade.

Coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, abril de 2013, p. 80, Edição Nº 696



"Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar porque você é bobo. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não me faz ser assim tão absurdamente feliz, só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso - Tati Bernardi".
E foi num domingo qualquer de abril que o improvável aconteceu e desde então estou absurdamente feliz. Mesmo com o medo incoerente da reaproximação falando mais alto, meu coração ainda o deseja com loucura e insensatez. 
Sei que é praticamente impossível ficarmos juntos novamente, a situação é delicada, e sempre soubemos que inegavelmente nascemos para sermos livres. Casamento algum nos prende.
Ficarmos juntos seria assumir uma culpa que não carrego, a de que durante todos esses anos nunca nos desvinculamos. Eu fui forte, sumi, não deixei vestígios, mas também nunca esqueci. Não sei se o carreguei em meus pensamentos devido ao tamanho da dor ou do amor, ou de ambos.
O que sei é que já não carrego uma aliança no dedo me impedindo de nada. Vão nos sentenciar dementes, nos apontar. Mas e daí? Ninguém tem moralismo suficiente para nos julgar.
E aos curiosos de plantão sinto informá-los, mas não haverá mudança de status no face, no máximo uma exclusão da minha conta para me manter afastada das especulações. Sou e estou feliz.
E o mais importante: minha felicidade não depende de outras pessoas. Deixei de precisar de uma “terceira perna”, que me era inútil, mas que fazia de mim um tripé estável. Abraço a loucura e o desequilíbrio e assim me vou. É assim que me reconheço e refaço minhas forças, meus planos, meu caminho.



Mirele Machado

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Não me esqueça assim tão rápido...


Tudo bem, a gente não vai terminar a história juntos. Eu supero; já superei muitas outras coisas nessa vida. Mas, por favor, não finja que não dói em você tanto quanto dói em mim. Não disfarça sua saudade indo em baladas com seus amigos e ficando com dezenas de mulheres bem diferentes de quem eu sou. Não joga fora nossa história nessa tentativa vazia de me esquecer – como se fosse assim, fácil. Deixe-se doer, porque a gente ainda se ama e acabar com um amor no meio dói, ainda que a gente nunca dê certo juntos. 
Chora. Se quiser, até fique com raiva de mim. Eu entendo se você nunca mais quiser me ver na vida. Uma parte de mim também não quer mais te ver, mas muito mais por saber que se eu esbarrar com você por aí, vou esquecer a sensatez e correr para os seus braços. Mas não liga para sua ex-namorada e volta a sair com ela, como se eu tivesse sido só um intervalo entre você e o grande amor da sua vida. Não faz isso comigo, por favor.
Não me esqueça assim tão rápido. E, quando esquecer, não o faça completamente. Lembre-se de mim quando passar em frente aos locais onde costumávamos ir juntos ou quando tocar aquelas músicas que eu adoro e você sempre odiou. Não precisa fingir que nunca fomos nada. Nós fomos - muita coisa. Lembre-se de tudo o que fomos, principalmente o quanto fomos felizes. Ainda que lá na frente você nem lembre desse casamento, se esbarrar comigo na rua, ao menos sorria, para eu ter certeza de que o tempo em que fiquei com você valeu a pena. 
Não quero ser como essas outras pessoas que namoram anos e depois que acabam dizem por aí que perderam tempo com o outro. Nós acabamos, mas não perdi meu tempo com você. Cada dia aprendi alguma coisa. Mesmo que a lição final tenha sido: nem sempre dá pra ficar ao lado de alguém que amamos muito. Não ache também que perdeu tempo comigo. Lembre-se que tudo o que vamos ser daqui para a frente é consequência de tudo aquilo que vivemos até hoje. Se me orgulho de quem eu me tornei, tem seu dedo nisso. Espero que tenha um dedo meu ainda marcado em você também.

sábado, 1 de outubro de 2011



"Sei o pulso das palavras, a sirene das palavras. Não as que aplaudem do alto dos teatros, mas as que arrancam os caixões da treva e põem os poemas a caminhar, quadrúpedes de cedro. Às vezes, as relegam inauditas, inéditas, mas as palavras galopam com a cilha tensa. Ressoam os séculos e os trens rastejam para lamber as mãos calosas da poesia. Sei o pulso das palavras. Parecem fumaça, pétalas caídas sobre o calcanhar da dança. Mas o homem com os lábios da alma, é apenas carcaça".

Maiakóvski

terça-feira, 30 de agosto de 2011




"Cada um tem seu método, como cada um tem sua loucura; e somente consideramos cordato aquele cuja loucura coincide com a da maioria".


Miguel de Unamuno (1864-1936)