quinta-feira, 25 de abril de 2013

BEM-VINDO, MEU AMOR




Fabrício Carpinejar



Bem-vindo, meu amor, nosso soluço não é mais do choro, agora é do riso, pelo excesso de alegria. 


Deixe para trás os ossos dos homens que não souberam lhe amar. Os ossos não têm olhos. 


Deixe as despedidas ingratas, a avareza dos outros. 


Deixe o que não traz mais lembrança; mentiras jamais acalmam.

Não seremos prisioneiros da culpa e do remorso, não seremos reféns das incertezas.

Incertezas envelhecem, as dúvidas não.

Você cria mistérios, sou mais vivo porque me questiona, sou mais seu porque não para de me perguntar o que aconteceu.

Venha engolir vento comigo, inspirar o primeiro ar da manhã da estrada, lavar as mãos no solzinho tímido.

Vem comigo, amor, cheira meu pescoço. É cheirando meu pescoço que descobrirá se falo a verdade. O cheiro é minha confidência. Meu cheiro tem o seu cheiro. Transpiro o que leio em sua pele.

Amar só traz simplicidade.

Amar só traz humildade.

Amar antes só me trouxe para perto.

Para aqueles que pensam que caso e me separo com facilidade, você será minha contradição, a insistência da virtude, a volúpia dos sapatos.

E vamos rir de soluçar. Pois ninguém acreditou na gente, a não ser a gente. Temos a vantagem da intuição, amor.

Você dormiu colada em meu corpo desde o início. E não pedimos trégua, água, tempo.

Sua respiração me assobia, me canta, me compõe.

Você não escondeu nada de mim.

Você conversa comigo como se eu fosse seu próprio pensamento.

Você já fez minha barba para sentir o quanto custa ferir meu rosto.

Eu já penteei seus cabelos para sentir o quanto um nó puxa a cabeça para baixo.

Bem-vindo, amor, nosso passado é o nosso futuro.

Você escolhe a roupa na última meia hora de sono. Eu me visto de suas escolhas pelo resto do dia.

Bem-vindo, amor.

Brigaremos no supermercado para definir nossa janta. Faremos festa ao descobrir um pequeno aumento no salário. Puxaremos assunto com os garçons. Receberemos elogios de estranhos comovidos com nosso abraço e inveja dos casais mais antigos. Tocaremos os pés na madrugada e ficaremos com vontade de acordar. Encostaremos os braços nos filmes e ficaremos com vontade de dormir. Jamais trocaremos de lado na cama. Dividiremos o jornal de domingo. Gostaremos das mesmas coisas das vitrines. Seu número em meu telefone constará como um segundo nome. Seus anéis estarão dentro de meus livros. Minhas mãos estarão dentro de suas mãos.

Bem-vindo, amor.

Felicidade não é para ser vivida sozinha. Sozinha, ainda é segredo.

A felicidade é uma denúncia. Vou denunciá-la com um beijo.

Denunciá-la para minha eternidade.

Coluna na Revista IstoÉ Gente
São Paulo, abril de 2013, p. 80, Edição Nº 696



"Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar porque você é bobo. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não me faz ser assim tão absurdamente feliz, só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso - Tati Bernardi".
E foi num domingo qualquer de abril que o improvável aconteceu e desde então estou absurdamente feliz. Mesmo com o medo incoerente da reaproximação falando mais alto, meu coração ainda o deseja com loucura e insensatez. 
Sei que é praticamente impossível ficarmos juntos novamente, a situação é delicada, e sempre soubemos que inegavelmente nascemos para sermos livres. Casamento algum nos prende.
Ficarmos juntos seria assumir uma culpa que não carrego, a de que durante todos esses anos nunca nos desvinculamos. Eu fui forte, sumi, não deixei vestígios, mas também nunca esqueci. Não sei se o carreguei em meus pensamentos devido ao tamanho da dor ou do amor, ou de ambos.
O que sei é que já não carrego uma aliança no dedo me impedindo de nada. Vão nos sentenciar dementes, nos apontar. Mas e daí? Ninguém tem moralismo suficiente para nos julgar.
E aos curiosos de plantão sinto informá-los, mas não haverá mudança de status no face, no máximo uma exclusão da minha conta para me manter afastada das especulações. Sou e estou feliz.
E o mais importante: minha felicidade não depende de outras pessoas. Deixei de precisar de uma “terceira perna”, que me era inútil, mas que fazia de mim um tripé estável. Abraço a loucura e o desequilíbrio e assim me vou. É assim que me reconheço e refaço minhas forças, meus planos, meu caminho.



Mirele Machado

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