sexta-feira, 3 de abril de 2015

Carne convulsa é o que resta

Não vou te deixar, por enquanto. Ficarei mais um pouquinho. Demorei tanto para me apaixonar que agora não sei como me despedir. Eu que sou tão boa em bater a porta sem olhar para trás, desaprendi a desatar o nó. Há dez meses estamos assim, indo e vindo e nunca chegando a lugar algum. Sempre deixo-o vir, mas ele não é meu; então finjo não ser dele, eis nossa cínica troca.
Perdi a conta de quantas vezes terminei "para sempre", como se meu silêncio persistisse mais de duas semanas. E não foi só a noção de "para sempre" e de silêncio e de amor-próprio que perdi. Perdi aquela máscara que fazia de mim intocável em meu pedestal. Meus sentimentos não se disfarçam e a vulnerabilidade se instala.
Semana passada, disse assim desse meu jeito desajeitado e torto: -Acho que gosto de ti! - e isso é o máximo que me permito dizer. Ele retrucou: -Eu sei, por isso eu sempre venho te ver! Eu sei? Mês passado, começou com aquele lance de trocar juras, até um "te amo" escreveu, agora apenas sabe? Ai, Deus, esse cara quer me enlouquecer!
Fiquei brava com o saber dele, engoli em seco meu choro, meu despeito, meu amor; enquanto nossos corpos se encaixavam para dormir. Diz ele: -Como a gente se acerta para dormir, o encaixe é perfeito! Neste momento estou surda. E cega. É que outros homens me olham e não enxergo nenhum deles, acomodei meu corpo e meu coração nos braços desse moço que nem me faz infinita questão.
Quando cito minhas frases-de-cabeça (Guimarães Rosa), ele não entende nenhuma. Porque se acha esperto, mas é burro. Carne convulsa é o que me resta, mesmo que escrito na testa, me testa. Amor que não é meu e que nem sequer cheguei chamá-lo assim. 


Mirele Machado

2 comentários:

  1. Amar de verdade é sentir-se a metade.
    GK

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    1. Então, julgo não saber amar. Não sei amar sendo metade, pois me amofina, anula. Quero vivenciar o amor sendo completa e é justamente aí que ele me escorre pelos dedos, escapa e nunca mais retorna.

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