- Somos escravos assalariados
O filme, de Sérgio Bianchi, Quanto vale ou é por quilo?, aborda dois períodos na história do Brasil que, à primeira vista, pareceriam distintos: a época da escravidão e a atual realidade assalariada. Através de uma construção histórica, visualizamos com nitidez a herança da escravidão que está nas classes dominantes que criam valores discriminatórios através dos quais conseguem barrar nos níveis econômico, social e cultural a manifestação da consciência negra.
O filme mostra a violência na captura dos negros, nos castigos corporais a que eram submetidos e no ato de serem vendidos no mercado como se fossem apenas coisas, objetos, animais. Os negros eram atividade comercial que dava grandes lucros aos empresários. Hoje, não é diferente, somos escravos, embora assalariados e vítimas do modelo social: compro, logo sou.
Outro fator marcante do filme é a resposta que a sociedade dá a criminalidade, ou seja, o aprisionamento. Embora pareça haver consenso de que essa seja a medida ideal e que lugar de bandido é na cadeia, não se pode esquecer que o custo social de tal solução está longe de ser desprezível. O criminoso fica impedido de delinqüir apenas enquanto estiver preso. Ao sair, terá rompido laços familiares e sociais e dificilmente encontrará quem lhes dê emprego e voltará a roubar, traficar, etc.
Enquanto, por exemplo, políticos corruptos roubam quantias exorbitantes do país e cometem tantos outros delitos encontram-se em liberdade aproveitando o dinheiro da nação o pai de família desempregado que rouba para sustentar o filho que está para nascer acaba preso. Não estou apoiando a criminalidade, mas salientando que é injusto.
A solução para os marginais, que do meu ponto de vista, são mais vítimas da desigualdade e do sistema explorador vigente no país, estaria na melhora do sistema educacional e das condições necessárias para ingressá-los no mercado de trabalho, já que muitos cometem crimes para aumentar a renda.
Acho esse filme um exemplo de utilidade pública. Um filme feito, pensado e utilizado para fazer com que aquelas pessoas que vejam suas imagens se conscientizem e passem a agir como elementos multiplicadores de uma realidade que embora sabida de todos é escamoteada com a desculpa individualista de que “eu pago meus impostos o governo que cuide do problema”.
Sendo assim, ficou ainda mais evidente que tudo gira em torno de dinheiro e que as supostas ações para acabar com as desigualdades sociais, aparentemente ingênuas, estão carregadas de segundas intenções. Construir cadeias custa caro, alguém aproveita para vender cimentos superfaturados, por exemplo, sem falar que administrá-las é mais caro ainda. Até para garantir a “segurança da sociedade” alguém sai lucrando.
A moral da história é que sempre alguém lucra com a desgraça do menos favorecido. E por trás de “campanhas sociais” está a promoção política, econômica e social de alguém, até porque quem realmente faz caridade não é sabido de todos. Somos escravos sem direito a alforria e nos iludimos na crença de que somos livres assalariados, livres desempregados, mas, sobretudo livres. Liberdade nunca nos foi concedida e continuamos enclausurados num navio negreiro.

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