sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ai... essas reticências!

-Hoje, foi nossa última vez. Não dá mais! - disse ele assim, enquanto se vestia. Paralisada, no sofá, hipnotizada nos olhos negros, invés das palavras proferidas; não disse nada. 
-Quer chorar? Quer me dizer alguma coisa? Tu gosta de mim? Desculpa? - resmungou ele.
-Sai daqui, eu não quero chorar. Só quero que tu saia.
-Quer que eu saia porque tu vai chorar?
Ai, como eu o odeio por isso. Não chorei, pois sei que em quinze dias "volta o cão arrependido". Eu terminei tantas vezes, agora é vez dele. Isso é outra daquelas reticências que a consciência nos impõe colocar. Os dois tem problemas com pontos finais, agora sei. 

"...Eu quase que fico feliz com você
Que quase disse aquelas coisas sem querer
Que meu lamento não te deixa triste
Seu quase sofre de chorar sem sorte
Mereço quase o nosso caos
Se eu quase vivo de tentar..."



quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Mas não nesse mês, não nessas férias, não nesse ano"

Muito eu, sempre indisponível afetivamente. Sempre com uma desculpa esfarrapada por estar muito ocupada fazendo nada. E o cara insiste, ele tenta, se esforça, até que desiste de tanta negação. Eu e minha psique; e a maldita projeção do meu complexo paterno.
"O primeiro homem que uma mulher conhece é seu pai, que portanto tem uma influência muito grande sobre a menina. Se a relação com o pai se constela de um modo negativo, a menina reagirá negativamente a ele. O pai, em si, pode ou não ser um homem difícil. A menina pode simplesmente não gostar dele. De qualquer modo, se a relação for negativa, mais tarde ela provavelmente terá dificuldade com os homens e não descobrirá seu próprio lado masculino. No extremo, ela ficará completamente incapaz de abordar os homens. Com certeza terá medo deles. Se o caso não for tão extremo, ela será o que se costuma chamar de uma mulher difícil. Discutirá com os homens, tentará sempre desafiá-los, criticá-los e pô-los para baixo. Ela esperará negatividade da parte deles, e essa expectativa naturalmente criará dificuldades para o parceiro”. (Von Franz, 1992b, p.163)
Tendo constelado em sua psique o complexo paterno, a mulher, além de pautar suas atitudes por um padrão caracteristicamente masculino, projetará nos homens esse complexo. Ela acreditará que o homem concreto que vê com os olhos da sua interioridade é de fato como o vê, já que, em algum nível, e em alguma proporção, ainda que mínima, ele possui características semelhantes àquelas.

sábado, 2 de maio de 2015

Só terei paz longe de você

É chegada a hora da despedida, de desatar o nó. Não dá para viver nessa reprise de novela mexicana eternamente. Fingi na hora rir, mas depois da despedida desabei; humana que sou. Verdade é que acomodei meu corpo e meu coração por demasiado tempo nos braços desse moço que não me faz infinita questão. Sem arrependimentos, sem mágoas, sem tormentos. Guardo o que foi bom e sigo em frente. Nenhuma dor é eterna e todo fim é antes de tudo um recomeço.
"Nosso romance é um elefante numa loja de cristais. Eu te amo demais, mas hoje eu consigo entender que eu só terei paz quando estiver longe de você".


sábado, 4 de abril de 2015

Ahhh... o amor, esse insano!

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. 
Guimarães Rosa


Eu que não fumo, perdi as contas de quantos cigarros fumei e quantas vezes olhei a tela do celular procurando o nome, pensando em escrever uma mensagem qualquer. Visualizar o nome me fez perder toda a vontade, joguei o celular no chão. Chorei! Como se existisse uma sintonia, ele veio, não creio, é verdade, mas veio.
O que o trouxe até aqui? O álcool, o sentimento que não mencionamos existir, o prazer da minha carne convulsa? Não sei, não sei; e esse não saber me atordoa. Não o beijei, como se assim eu o amasse menos. A rejeição foi só o desespero da minha entrega. Um discurso ensaiado na mente, mas palavra alguma sai. Brasa ao primeiro toque e confissões tantas. Ahh... o amor, esse insano! Amor meu, só meu; que só o que recebo em troca é a volúpia da carne.
Não consigo ser de mais ninguém e não sou dele também. Gosto dele assim, não sabendo se vai fugir ou ficar. Leve, livre, cálida, inconstante e apaixonada, assim me vou viver o milésimo amor. Amar já prevendo o milésimo rompimento e as lágrimas tantas! Ai que tola!, e o beijei com fúria; tão macia a pressa, tão vagos amantes. E ao despertar, abraçá-lo até me sufocar na delícia que é o aconchego daqueles braços. Ainda dá tempo de encostar o queixo no ombro e dizer: -Te amo! Mas não digo. 

Mirele Machado



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Carne convulsa é o que resta

Não vou te deixar, por enquanto. Ficarei mais um pouquinho. Demorei tanto para me apaixonar que agora não sei como me despedir. Eu que sou tão boa em bater a porta sem olhar para trás, desaprendi a desatar o nó. Há dez meses estamos assim, indo e vindo e nunca chegando a lugar algum. Sempre deixo-o vir, mas ele não é meu; então finjo não ser dele, eis nossa cínica troca.
Perdi a conta de quantas vezes terminei "para sempre", como se meu silêncio persistisse mais de duas semanas. E não foi só a noção de "para sempre" e de silêncio e de amor-próprio que perdi. Perdi aquela máscara que fazia de mim intocável em meu pedestal. Meus sentimentos não se disfarçam e a vulnerabilidade se instala.
Semana passada, disse assim desse meu jeito desajeitado e torto: -Acho que gosto de ti! - e isso é o máximo que me permito dizer. Ele retrucou: -Eu sei, por isso eu sempre venho te ver! Eu sei? Mês passado, começou com aquele lance de trocar juras, até um "te amo" escreveu, agora apenas sabe? Ai, Deus, esse cara quer me enlouquecer!
Fiquei brava com o saber dele, engoli em seco meu choro, meu despeito, meu amor; enquanto nossos corpos se encaixavam para dormir. Diz ele: -Como a gente se acerta para dormir, o encaixe é perfeito! Neste momento estou surda. E cega. É que outros homens me olham e não enxergo nenhum deles, acomodei meu corpo e meu coração nos braços desse moço que nem me faz infinita questão.
Quando cito minhas frases-de-cabeça (Guimarães Rosa), ele não entende nenhuma. Porque se acha esperto, mas é burro. Carne convulsa é o que me resta, mesmo que escrito na testa, me testa. Amor que não é meu e que nem sequer cheguei chamá-lo assim. 


Mirele Machado

domingo, 8 de março de 2015

Maldito seja!

Só quero fugir desse coração.
Só isso, pretim.
Ai de mim, cegueira tomou conta.
Deixa eu fugir do caos.
Não me afaga os cabelos,
cê sabe que eu fico.
Não dá mais para ficar.
Não dá mais para fingir.
Eu vi a foto.
Afoguei-me em cólera
E cê sabe que não sei nadar.
Não disfarça.
Cê sabe que eu vi.
Maldito seja, amor meu!
Maldito seja!






domingo, 16 de novembro de 2014

Se ela sorrir


Se algum dia ela sorrir para você, sei lá, em um bar desses em que ela gosta de tomar cerveja, sorria de volta, cara. Ela procura em você uma alma disposta e composta. Dessas feitas de muitas partes. De vários mistérios e diversos assuntos.


Não posso mentir; dizer que gosto de saber que ela está ali, na boemia da noite, disposta a receber outro cheiro marcante. Outro ‘oi’ insinuante. Que insinua uma mão na cintura. Que desperta o alerta daquela mulher tão cheia de paixão e que tem tanta temperatura na saliva. Se você é desses que sentem nojinho ao ler a palavra saliva, saia de perto dessa mulher. Ela gosta de língua, não tem medo de dizer.

Se algum vinho rolar em algum cantinho, olhe para o céu em seguida. Faça o brinde a ela, faça o mais intenso amor. Faça sem pronunciar ‘por favor’. Obrigue-a a sentir prazer. Conte uma história ao pé do ouvido. Deixe ela se envergonhar quando encostar seu quadril no dela pela primeira vez. Logo passa. Ela é dessas que fazem da provocação a casa e a moradia. Por um quadril bem agarrado, ela diz que já fez cada coisa. Já se meteu em cada uma.

Olha só, quando acontecer aquele encaixe – já de corpo suado – diga no ouvido dela que não vai parar. Diga que ela fica um espetáculo de quatro. Só para você saber: ela é um espetáculo de quatro. É outro nível de mulher. Sabe se virar e sabe rebolar. Rebola porque adora, não porque alguém disse que tinha que ser assim. Curte um tapa na bunda e curte a calcinha puxada para o lado. Ama ajoelhar e ter o cabelo agarrado quando a boca está cheia. Aliás, não sei o que fica mais cheia quando ela ajoelha pra chupar: a boca ou a cabeça – com um monte de pensamentos sujos. De gemidos por vir. De posições pra sentir. Sim, sentir. Ela gosta que o pau chegue no fundo da buceta. Ela disse nunca ter sido hipócrita: adora pau grande. Não que o pequeno não sirva, mas é que o grande não foi feito para servir, foi feito para ultrapassar. Ultrapassar os limites dela na cama.

Se essa mulher lhe pedir algo quando você estiver por cima, será para que a xingue. Faça isso. Sem dó. Pegue no queixo dela, dê seu melhor beijo, olhe no olho dela e diga: ‘Minha puta. Minha puta. Minha puta’. Ela pinga quando ouve isso. Já houve vezes em que puxou os lábios para o lado de forma tão intensa, parecia que iria machucar. Abria a buceta pra dizer: ‘Fode mais. Fode mais a sua puta’. Sim, agora você a tem como puta. Não peça licença, não peça nada. Só coma. Só foda. Só exploda dentro dessa que tem na própria história os motivos de não querer guardar prazer. Ela não guarda orgasmo. Explode todos eles nessa sociedade que ainda a recrimina por transar tanto quanto você.

Não consigo esconder: encosto em mim quando penso nela. Se dou a sorte de estar no banho ou na cama, imagino a mão dela dançando na minha pele. Me fazendo sentir tim-tim por tim-tim o prazer que ela tem dentro daquele corpo de baixa estatura e curvas deliciosas. Ela gosta de segurar no pau. Tem a mão, ok. Tem o vibrador, ok. Mas é do pau que ela gosta. Na mão, na boca, sendo esfregado naquele rosto lindo. Adora poder dividir a conta do jantar, mas sempre ser a sobremesa. Ser comida como se fosse o morango mais doce do mundo.

(...)


Mire bem o olho enquanto domina o quadril dela. Sim, domine. Ela não tem medo dessa palavra. Igualdade pode ser social, mas ela não faz nenhuma questão de que seja biológica. Na maioria das transas é fêmea e não procura engajados sociais, procura um macho. Um que terá o privilégio de perceber como ela treme o quadril com intensidade quando presenteia o mundo com mais um gozo forte. Desses que a deixam instantaneamente de clitóris sensível e sorriso aberto. Imóvel. Quieta. Feliz.


Mas tudo isso só irá acontecer se você sorrir de volta naquele dia em que ela estiver tomando cerveja com a alma disposta. Beeeem disposta.

**

[fábio chap]